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Histórias de Sucesso Sebrae
Empreendedores Agronegócio

Casal de dentistas transforma fazenda de lazer em negócio de família, no interior de Minas

Donos de propriedade em Piumhi conseguiram, com apoio do Sebrae Minas, multiplicar a produção de leite e despertar nos três filhos o interesse pela atividade rural e a sucessão familiar

O que começou como um espaço de descanso para um casal de dentistas se transformou em uma propriedade leiteira que, atualmente, produz cerca de nove mil litros por dia, e prepara uma nova geração para assumir os negócios. Em Piumhi, no Centro-Oeste do estado, Glauter e Maria Stelita Goulart encontraram na gestão profissional o caminho para transformar a Fazenda Três Marias em uma atividade economicamente sustentável.

Com o apoio do programa Educampo, do Sebrae Minas, o casal reorganizou os custos, ampliou a produtividade e passou a investir em tecnologia, bem-estar animal e sustentabilidade. A transformação também mudou os planos dos três filhos: Maria Carolina, que também atua como odontóloga; Glauter Junior, engenheiro de petróleo; e Maria Cláudia, engenheira de equipamentos.

Se por alguns anos eles estiveram distantes da rotina da propriedade, agora, eles enxergam na atividade leiteira  a continuidade dos negócios da família. Hoje, participam da administração e se preparam para assumir novas responsabilidades, enquanto a fazenda projeta alcançar a produção de 11 mil litros de leite por dia.

O início da trajetória no leite

A história do casal com o campo começou há 27 anos, quando foi adquirida uma propriedade de 22 hectares, inicialmente, destinada ao lazer, pois Glauter e Maria Stelita trabalhavam como dentistas, em Piumhi. Como o terreno era maior do que o necessário para descanso, decidiram formar pastagens, construir um curral e comprar dez bezerras desmamadas.

A criação cresceu e a produção de leite, inicialmente, era de cerca de 200 litros diários, em uma estrutura simples. A ordenha era realizada por um funcionário, com um equipamento que o próprio casal montou na fazenda. A inseminação artificial também começou de maneira improvisada, com algumas doses de sêmen adquiridos para iniciar o melhoramento do rebanho.

Paixão pelo campo ganhou gestão profissional

Apesar do envolvimento crescente com a produção, a atividade ainda não era viável financeiramente. Todos os meses, Glauter e Maria Stelita precisavam utilizar parte dos rendimentos obtidos na odontologia para cobrir despesas da propriedade. Foi quando decidiram buscar orientação técnica e ingressaram no Educampo, programa do Sebrae Minas voltado à melhoria da gestão de propriedades rurais.

“Nosso maior desafio era garantir a sustentabilidade financeira da fazenda. Com o Educampo, começamos a entender melhor sobre os custos, o que precisava mudar e como poderíamos melhorar os resultados”, conta Maria Stelita.

Uma das primeiras mudanças ocorreu no manejo reprodutivo. O casal identificou que reduzir a idade das novilhas ao primeiro parto poderia antecipar a geração de receita, e melhorar o desempenho financeiro. A propriedade passou a adotar protocolos de Inseminação Artificial em Tempo fixo (IATF) que permitem a inseminação em dia e horário marcados, melhorando os indicadores produtivos.

Outra decisão importante foi substituir a compra de ração pronta pela mistura dos ingredientes na fazenda, reduzindo os custos operacionais. A implantação de piquetes rotacionados e o aperfeiçoamento do manejo também contribuíram para a evolução do sistema produtivo.

Crescimento com sustentabilidade

Com melhores resultados, novos investimentos passaram a fazer parte do planejamento. Em 2015, quando a média de produção havia alcançado 32 litros de leite por vaca ao dia, o casal decidiu construir uma estrutura de confinamento do tipo free stall, destinada a proporcionar melhores condições de conforto aos animais.

A decisão representou um dos momentos mais desafiadores da trajetória da família. A obra foi realizada com recursos próprios e exigiu segurança para investir em uma atividade que, poucos anos antes, ainda dependia financeiramente da odontologia.

Os resultados não foram imediatos. Foi necessário adaptar o manejo, aprender a trabalhar com o novo sistema e aperfeiçoar a rotina da propriedade. Com o passar do tempo, as mudanças contribuíram para elevar a produtividade média por animal em mais de nove litros diários.

A expansão da Fazenda Três Marias também incluiu investimentos em sustentabilidade, como a recuperação de 90% da areia utilizada no confinamento, biodigestor, aproveitamento do biogás, fertirrigação e reutilização da água da chuva. As práticas aliam eficiência produtiva, gestão ambiental e bem-estar animal, e contribuíram para a conquista da certificação em Boas Práticas Agropecuárias (BPA).

Atualmente, a estrutura de confinamento tem capacidade para alojar 264 animais. O rebanho conta com 265 vacas, das quais 236 estão em lactação, além de 286 animais em recria. A propriedade também possui 71 novilhas prenhes, que representam parte do potencial de crescimento da produção.

 

Nova geração assume o campo

Se o crescimento da produção demonstra a transformação econômica da Fazenda Três Marias, a participação dos filhos representa para Glauter e Maria Stelita uma das conquistas mais importantes dessa trajetória.

Durante muitos anos, os três filhos acompanharam as dificuldades enfrentadas pelos pais para manter a atividade. A necessidade de complementar mensalmente as despesas e o esforço exigido pela rotina da fazenda não tornavam o negócio uma perspectiva atraente de futuro.

A percepção começou a mudar quando os investimentos e a profissionalização da gestão demonstraram resultados consistentes. Com a atividade financeiramente equilibrada, os filhos identificaram oportunidades de crescimento e decidiram participar da continuidade do empreendimento.

A família está concluindo a estruturação de uma holding patrimonial e organizando a divisão de responsabilidades. Glauter Jr. está se preparando para assumir a gestão ao lado dos pais, Maria Cláudia participa do controle financeiro com Glauter, e Maria Carolina recebe treinamento para atuar diretamente na rotina com os animais.

“Antes, os filhos viam muito sofrimento para tocar a atividade. Hoje, percebem que a fazenda se tornou autossustentável. Ainda precisamos acompanhar tudo de perto, mas já não enfrentamos as mesmas dificuldades. Isso fez com que eles enxergassem um futuro no negócio”, afirma Maria Stelita.

Os planos de expansão continuam. Além da perspectiva de alcançar 11 mil litros de leite por dia, a família trabalha na implantação de dois novos barracões destinados ao alojamento de animais fora da lactação. “Nossa meta é o bem-estar de todos: nosso, dos colaboradores e dos animais. O volume de leite é consequência disso. Sair de 200 litros por dia para cerca de 9 mil é um resultado que jamais imaginávamos. Aprendemos muito, e o acompanhamento do Sebrae foi essencial para chegarmos até aqui e, principalmente, termos nossos filhos envolvidos no empreendimento”, conclui Glauter.