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Histórias de Sucesso Sebrae
Empreendedores Agronegócio Café e Derivados

A trajetória de uma família que fez do café um caminho de valorização do Vale do Jequitinhonha

Cafeicultor Cláudio Nakamura chegou ao município de José Gonçalves de Minas em 1986, enfrentou isolamento e estiagem; hoje, colhe cafés premiados

Quando o agrônomo Cláudio Fujio Nakamura deixou o Paraná, em 1986, não havia asfalto até a cidade de José Gonçalves de Minas, no Vale do Jequitinhonha, hoje, com cerca de quatro mil habitantes. Ele e a esposa Elvia Nakamura chegaram para ocupar uma das 20 pequenas propriedades de um projeto de cafeicultura levado à região por produtores paranaenses e paulistas.

Quase quatro décadas depois, a propriedade é referência em cafés especiais na Região da Chapada de Minas e tem a segunda geração na condução do negócio. A trajetória da família é marcada pela imigração. Os avós de Cláudio chegaram ao Brasil em 1929, vindos do Japão, e trabalharam com cereais e algodão na região da Alta Paulista. Na década de 1940, adquiriram terras em Londrina, no norte do Paraná, onde passaram a cultivar café.

Cláudio nasceu em 1956, estudou sempre em escolas públicas e se formou em Agronomia pela Universidade Federal do Paraná. Com a geada negra de 1975, que dizimou a cafeicultura paranaense, parte da família seguiu para a Alta Mogiana, em Franca (SP). Em 1985, a alta no preço do café capitalizou os produtores e levou membros da Cooperativa Sul Brasil a investir em novas áreas, entre elas, o Vale do Jequitinhonha.

Desafios de quem chegou primeiro

Cláudio, que atuava como engenheiro agrônomo na região oeste do Paraná, foi convidado pelo tio a integrar o projeto. “Aceitei o desafio”, conta. O plantio seguiu as práticas mais recomendadas da época: conservação do solo, uso de matéria orgânica, plantio em curva de nível, espaçamento adequado à mecanização e quebra-ventos. As dificuldades sugiram na aquisição de insumos e de peças para máquinas, que exigia longos deslocamentos, e o clima, bem diferente do paranaense, impôs longos períodos de estiagem.

A resposta de Cláudio foi investir no solo. “Sempre procurei trabalhar na preservação e na melhoria da qualidade do solo para ter plantas mais saudáveis e resistentes”, afirma. Com o apoio da Emater, passou a disputar concursos de qualidade e, já nos primeiros anos, obteve boas classificações.

Um território que ganhou valor

Historicamente associado à vulnerabilidade social, o Vale do Jequitinhonha viu o café mudar parte desse cenário. A cafeicultura se desenvolveu em municípios como Capelinha, a partir da década de 1970, atraída por terras mais baratas e por linhas de financiamento, mesmo com problemas de logística e carência de assistência técnica. A produção de cafés finos consolidou a atividade e valorizou as propriedades rurais.

O passo seguinte foi a organização coletiva. Em 2018, foi criado o Instituto do Café da Chapada de Minas (ICCM) e, no ano seguinte, com o apoio do Sebrae Minas, lançada a marca coletiva Chapada de Minas, que reuniu produtores até então isolados. Muitos deles sequer sabiam a altitude de suas propriedades ou que cultivavam cafés especiais, informações que passaram a conhecer ao integrar o projeto desenvolvido pelo instituto com o Sebrae.

Em 2026, a região conquistou a Indicação Geográfica (IG) para seus cafés, que apresenta notas adocicadas, achocolatadas e carameladas, aroma intenso e corpo aveludado, características atribuídas ao solo, ao clima e ao relevo locais.

Acesso ao mercado internacional

Cláudio e Elvia participam das ações do ICCM desde a fundação do instituto, e o Sebrae Minas está presente nessa caminhada. “Vários agrônomos contratados pelo Sebrae estiveram aqui orientando na melhoria da qualidade dos nossos produtos, principalmente, nas técnicas de pós-colheita”, relata.

O grande apoio à propriedade veio do Educampo, programa voltado à gestão e ao acompanhamento técnico de produtores rurais. Ao longo da trajetória, o Sebrae Minas também ofertou outras soluções à família: o Impulsiona Negócios, o Sebraetec, com consultorias de branding e identidade visual e o ALI Produtividade – programa que conta com um Agente Local de Inovação (ALI) para ajudar o empreendedor a otimizar processos, reduzir desperdícios e aumentar o faturamento por meio de metodologias ágeis e práticas de gestão modernas.

Os resultados aparecem na lavoura e no negócio. Logo no início, a produção de cafés especiais passou de 200 sacas, em 2020, para 300, em 2021 e, com a expansão da área e a melhoria do manejo, a produção chegou a 1,5 mil sacas de grãos especiais. A propriedade profissionalizou os processos técnicos e gerenciais, com investimentos em irrigação e em métodos inovadores de fermentação. A criação de marca própria e da Torrefação Nakamura permitiu comercializar cafés especiais com maior valor agregado, e o produto passou a ser exportado para mercados como Austrália e Estados Unidos. A primeira exportação, para a Austrália, foi viabilizada com o apoio do Sebrae.

As pontuações alcançadas rendem à família uma margem extra de, aproximadamente, 20% a 30% sobre os preços do café, e os prêmios em concursos de qualidade ampliam o reconhecimento do produto no Brasil e no exterior. A experiência da propriedade também serve de estímulo aos vizinhos. “Os resultados daqui, na produção e na qualidade, têm encorajado agricultores do município e da região a investir na cafeicultura de qualidade”, destaca Cláudio.

Nova geração no campo

Uma outra etapa da história começou com o retorno do filho Eder Nakamura que, após cinco anos trabalhando em uma indústria do setor automobilístico no Japão, voltou a José Gonçalves de Minas, durante a pandemia da Covid-19 para ajudar os pais. A decisão acompanha um movimento mais amplo: com o bom momento do café, filhos de produtores que haviam deixado a região passaram a retornar e a assumir funções no ciclo produtivo, da melhoria da qualidade à criação de novos negócios no campo.

Na fazenda dos Nakamura, Eder cuida da torrefação, aberta pela família para enfrentar parte do desafio histórico do escoamento. Ao torrar o próprio café, a propriedade passa a vender um produto de maior valor agregado, com menos dependência de intermediários e de longos deslocamentos. Para Cláudio, a trajetória confirma uma aposta feita há quase 40 anos. “Hoje, estamos adotando o manejo regenerativo para oferecer cafés cada vez melhores aos nossos consumidores”, diz.