A perda precoce dos pais, aos nove anos de idade, levou Pedro Marques a morar em uma fazenda no município de São João Evangelista, no Vale do Rio Doce, onde aprendeu o ofício de vaqueiro e a trabalhar com a produção de leite. Algum tempo depois, adquiriu sua própria terra e encontrou na fabricação de queijo o sustento da família. Na propriedade, produzia cerca de 70 litros de leite por dia, retirados por ordenha manual e destinados integralmente à produção de queijo.
Nesse ambiente, ele criou o filho Mírio, que cresceu e cultivou o desejo de dar continuidade ao trabalho do pai. Formou-se em Zootecnia e fez mestrado em gado leiteiro no Rio de Janeiro, onde também conheceu Viviane Tibau, sua esposa e sócia. Depois de formados, os dois seguiram caminhos profissionais bem distantes da atividade rural. Ele trabalhou como gerente em uma empresa de eventos, enquanto ela se dedicava como sócia em uma joalheria.
Mudança dos planos
Em 2018, a morte da mãe de Mírio, Avany Alves, o motivou a voltar para São João Evangelista, no ano seguinte, para ficar ao lado do pai. Assim, aos poucos, se reaproximou da rotina no campo e percebeu que, além de ser uma forma de sustento, a propriedade poderia ser um empreendimento com resultados viáveis.
Começou a reconstruir cercas, reorganizar a distribuição de água e aprimorar o manejo, até assumir a propriedade. “Meu pai foi a nossa principal referência. Foi dele que veio a tradição, o respeito pela terra e pelos animais. Preservamos esse saber e, agora, aplicamos a tecnologia para melhorar a produção e dar rentabilidade ao negócio”, conta.
A participação na cooperativa de leite também favoreceu o acesso a orientações técnicas. Um passo importante nessa transformação foi a participação no Educampo Leite, programa do Sebrae Minas, a partir de 2021. Com visitas mensais de um zootecnista e acompanhamento dos custos e resultados, Mírio passou a identificar gargalos e buscar alternativas para melhorar a rentabilidade. Hoje, a propriedade tem cerca de 100 animais e produz 600 litros por dia.
Dos 67 hectares da propriedade, 35 são preservados. Nos 32 hectares restantes, a família mantém a criação e produz o volumoso fornecido aos animais. A ração também é processada na propriedade, uma estratégia para melhorar o planejamento alimentar com custos menores e aumentar a produtividade, sem ampliar a ocupação da terra. “Não é fácil, principalmente, porque ainda temos pouca experiência como empreendedores. Mas estamos investindo na nossa qualificação e a assistência do programa ajuda muito”, afirma.
Com apoio do Sebraetec, a família também investe em fertilização in vitro (FIV) e na seleção de animais A2A2, buscando padronizar o rebanho e aprimorar a matéria-prima utilizada na fabricação dos queijos.
Estratégias para agregar valor
Com a propriedade mais estruturada, Mírio e Viviane decidiram transformar parte do leite em queijo, retomando o ofício que ajudou a sustentar a família e agregando valor à produção. Assim, nasceu a Queijaria Du Pidrim, que transformou a produção familiar de leite e de queijo em um negócio que une tradição, conhecimento técnico e inovação.
O casal buscou informações técnicas, visitou produtores de referência e participou de feiras, eventos e cursos de boas práticas. Viviane cuida de todo o processo de produção e gestão da marca, e Mírio foca na produção, gestão e nas vendas. O filho do casal, Pedro Henrique, que havia iniciado a faculdade de Direito, interrompeu o curso para se dedicar ao negócio junto com os pais.
Além de ajudar na rotina da propriedade, Pedro utilizou o conhecimento em marketing e inteligência artificial para criar um aplicativo que ajuda a gerenciar estoque e rastrear os queijos produzidos, de acordo com o leite utilizado, data de fabricação e destino, aumentando o controle de qualidade do produto.
Com o slogan “O sabor da nossa terra e o carinho da nossa gente”, a marca Du Pidrim, criada em 2025, homenageia o pai e leva para novos mercados uma história construída com trabalho, persistência e respeito à terra. O trabalho foi reconhecido em 2026, quando a produção conquistou o segundo lugar em um concurso regional de queijos do Serro. “Com o apoio do Sebrae, desenvolvemos o produto, a marca e a estratégia para chegar ao comprador. Estamos sempre buscando aprender, participar de eventos e conversar com outros produtores”, destaca Mírio, que também participou do Empretec, metodologia de formação empreendedora apoiada pelo Sebrae.
Do campo às prateleiras
Atualmente, cerca de 25% dos 600 kg de leite produzidos diariamente são destinados à fabricação de queijo, enquanto o restante segue para a cooperativa. A meta é elevar essa proporção para 70% até o fim de 2026, ampliando as vendas diretas para supermercados e pequenos empórios, e reduzindo a dependência de intermediários.
Com apoio do Sebrae em capacitações, consultorias e oportunidades comerciais, a presença da marca está sendo ampliada. A queijaria também participa da consultoria Move Mais Agentes de Mercado, voltada à aproximação entre pequenos negócios e compradores empresariais. Assim, a Du Pidrim já busca atender mercados em Guanhães, Vale do Aço e de Governador Valadares, planejando o crescimento conforme a capacidade produtiva e a demanda. Mírio também sonha em abrir as portas da fazenda para que os consumidores conheçam a origem dos alimentos, os cuidados com os animais e os processos de produção.




