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Histórias de Sucesso Sebrae
Empreendedores Café e Derivados

A vanguarda e o prestígio da Região do Cerrado Mineiro

De uma fronteira agrícola a um dos mais prestigiados polos de café do mundo, região construiu uma trajetória marcada por pioneirismo, associativismo, inovação e excelência

Episódio 1

A tradição que veio de fora

Uma das formas de conhecermos a história de uma cidade ou uma região é procurar saber mais sobre as tradições do lugar e sua vocação para produzir algo. No entanto, nem sempre acontece assim – como não ocorreu na história do Cerrado Mineiro.

Quem chegou para ocupar economicamente a região não tinha nenhum vínculo especial com a terra e nem foi “descobrir” o café. Na verdade, a maior parte daqueles imigrantes – oriundos principalmente do Paraná – foi para a região com o objetivo de recomeçar a vida como cafeicultor, devido às geadas que destruíam muitas culturas da região. Eles chegaram a Minas levando suas técnicas, seu maquinário e o conhecimento.

Esses primeiros produtores que perderam tudo no Sul encontraram, naquele cerrado de relevo muito plano e céu alto, um lugar que parecia propício para ser reinventado. Na prática, podemos dizer, então, que a tradição da região não veio antes da técnica – mas sim floresceu juntamente com ela. E assim gerou pertencimento e construiu identidade.

Agora, são esses empreendedores que narram as suas próprias histórias, marcadas por desafios e conquistas, como no caso do produtor rural Gláucio Castro, atual presidente da Federação dos Cafeicultores do Cerrado. Há 40 anos, ele vem trabalhando na região e justifica a fama que o café obteve:

“As características geográficas daqui tornam a região propícia para a produção de café de qualidade. Estamos falando especialmente do clima seco e de um período de inverno mais frio, que proporcionam um amadurecimento mais lento do grão. Isso faz com que os sabores que estão na casca e no mel do café vão sendo transferidos para o grão, o que garante uma qualidade superior ao nosso produto”, afirma Gláucio.

Para o diretor-executivo da Federação dos Cafeicultores do Cerrado, Juliano Tarabal, a criação de entidades de produtores foi muito importante para a estruturação do setor. Ele relata que o café do Cerrado Mineiro surgiu na década de 1970, quando paranaenses e paulistas foram para a região em busca de uma nova fronteira para cultivar o produto.

Segundo Juliano, isso ocorreu, especialmente, em função da chamada geada negra que, em 1975, devastou todo o cafezal do Paraná, dizimando nada menos que 300 mil hectares de plantação em uma única noite. No caso dos cafeicultores paulistas, explica ele, a migração ocorreu por causa de uma praga chamada nematoide que se alastrou por muitas regiões produtivas. Juliano completa:

“Aqueles problemas inviabilizaram, na época, a cafeicultura daqueles dois estados, ocasionando uma forte migração de produtores para o Cerrado mineiro e dando início à produção na década de 1970. Logo depois, nos anos 1980, começaram a surgir as associações. Em 1984, por exemplo, foi criada a primeira delas – a Associação de Cafeicultores de Araguari. Em 1986, foi a vez da Associação dos Cafeicultores de Patrocínio (Acarpa) e, em 1992, nasceu o Conselho das Associações dos Cafeicultores do Cerrado, que atualmente se chama Federação dos Cafeicultores do Cerrado”, diz Juliano.

Produção se torna profissional

A produção cafeeira cresceu em um compasso bem natural no Cerrado. Sob um céu sem pressa de mudar, as estações se arrastam com folga, o relevo se estende sem interrupção, e a lavoura acompanha esse ritmo, de maneira ampla, aberta e exposta ao tempo.

Ainda no começo da década de 1970, o processo de produção começou a ganhar contornos mais definidos e se tornou mais profissional quando o Instituto Brasileiro do Café (IBC) oficializou a região como área cafeeira. Essa decisão abriu espaço para mais pesquisas, investimentos e também para um olhar mais atento ao que estava sendo construído ali.

Um dos fatores também fundamentais para a arrancada do desenvolvimento do Cerrado foi o espírito desbravador de muitos dos que chegaram de fora, como o cafeicultor paranaense Francisco Sérgio de Assis, que se tornou um renomado engenheiro agrônomo na região. Hoje, ele preside a Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado de Monte Carmelo (monteCCer) e a Fundação de Desenvolvimento do Cerrado Mineiro (Fundaccer). Francisco se recorda dos primeiros anos:

“Quando nós chegamos, por volta de 1986, o investimento em tecnologia era muito baixo, e todos nós sabíamos muito pouco sobre as características do território. Tivemos de ser, realmente, os desbravadores em busca de informações e de aprendizado – e fomos buscar tudo isso no Instituto Brasileiro do Café, que dava suporte para o setor em todo o país. Participei, juntamente com outros produtores, da implantação da Associação dos Cafeicultores da Região de Monte Carmelo – a Amoca. Logo depois, vimos a necessidade também da criação de cooperativas para auxiliar no preparo do café e na comercialização”, recorda.

A força do associativismo

Quem concorda com Francisco é Simão Pedro de Lima, diretor da Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado (Expocacer). Na visão dele, foi exatamente o associativismo que impulsionou a união de todos, como explica: “O mais determinante aqui na região foi mesmo o objetivo comum de unir os produtores para a valorização de uma produção de alta qualidade e que se tornou única em todo o Brasil. Eu não tenho dúvida em dizer: as cooperativas representam os braços estendidos dos cooperados, que fazem o produto chegar a qualquer lugar do mundo. Afinal, a cooperativa não é uma intermediária do setor. Pelo contrário, ela é a representatividade efetiva dos produtores”.

Outro impulso que ajudou muito a projetar a produção da região no país e no exterior passou a ocorrer na medida em que os cafeicultores começaram a participar de concursos e prêmios do segmento, como ressalta Gláucio Castro:

“Começamos a participar de eventos nos quais se promoviam premiações para os melhores cafés. O Cerrado Mineiro foi agraciado em vários deles, o que passou, evidentemente, a destacar a qualidade do produto da região. Sem dúvida, isso resultou em mais força e mais foco para os produtores, no sentido de desenvolvermos ainda mais nosso café”, lembra.

Formação de identidade coletiva

Como vimos, o Cerrado Mineiro é, possivelmente, um dos únicos lugares onde a história do café não começa com uma descoberta, mas com uma decisão – a que levou centenas de produtores a saírem de sua terra natal para fincarem raízes em uma nova região e chamá-la de sua.

Com muito trabalho e cooperação, a formação da identidade de cada um desses produtores que vieram de longe transformou-se em uma iniciativa coletiva, responsável pelo sucesso do café do Cerrado.

No próximo episódio, vamos ver como esse território, com o apoio do Sebrae e de diversos parceiros, se tornou pioneiro e referência no Brasil.