A serra que chora
O mar de montanhas que se espalha por diversas regiões de Minas Gerais, criando paisagens inesquecíveis, faz com que cada serra do estado seja um cenário com belas imagens. Porém, pode-se dizer que a Mantiqueira sempre foi um palco, no qual as cortinas são formadas pelas névoas que sobem e descem, revelando seus incontáveis morros. Por essas encostas, corre a água abundante das nascentes e das cachoeiras.
É a “serra que chora”, como diziam os povos originários da região. E são essas “lágrimas” da Mantiqueira que se infiltraram na terra e alimentaram as raízes dos primeiros cafezais. Lágrimas que ajudaram a escrever uma história que deu origem à atual cultura de café no território.
Terrois garantem os diferenciais
Para Roney Villela, cafeicultor da empresa Centro do Café, é exatamente a altitude que se destaca como um dos grandes diferenciais da Mantiqueira. O outro é a separação dos grãos maduros que completam o ciclo de maturação, representando expressiva diferença no resultado final.
Segundo ele, o fato de a região ser muito montanhosa é um grande desafio na condução da lavoura e da colheita. Mas, como se sabe, são as serras e as terras mais elevadas que garantem os terroirs e a produção diferenciada da Mantiqueira.
A retomada dessa tradição se intensificou a partir de 1997, com a criação da Associação dos Produtores de Café da Mantiqueira (Aprocam). Naquela época, o setor enfrentava, em todo o país, uma forte crise devido à queda dos preços do café, como relata Alessandro Hervaz, presidente da entidade:
“Os produtores de café de montanha, preocupados com a crise, sentiram que era preciso tomar algumas iniciativas para se manterem vivos e produzindo na nossa região. Fizemos, então, uma aposta na qualidade. Para isso, foram instalados os primeiros descascadores de café em diversas propriedades, e o produto começou a apresentar melhoras.
Os nossos cafés começaram a participar de concursos e a obter bons desempenhos nesses eventos, como os da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA em inglês). Depois de um tempo, só dava Mantiqueira entre os vencedores, o que deu uma visibilidade muito grande para a região”.
Na trilha da conquista da qualidade
Quem também descreve o caminho que o café da região trilhou até atingir esses expressivos ganhos de qualidade é o cafeicultor Antonio José, da Fazenda Sertão. Na época, os produtores convidaram um consultor da região do Cerrado para analisar o café e dar um parecer: o produto da Mantiqueira tinha ou não tinha qualidade?
O especialista levou algumas amostras para análise e deu seu parecer, como explica o cafeicultor:
“Ele disse que o nosso café tinha ‘um fundinho de qualidade’, mas havia grãos verdes (imaturos) misturados com cereja (maduros) e com boias (secos). Era preciso fazer a separação.
O consultor sugeriu a compra das máquinas apropriadas a essa operação para solucionar o problema. Tudo isso aconteceu no ano de 2002. Depois disso, umas 20 máquinas de separação e descasque de café entraram na região.
Alguns anos mais tarde, um dos nossos cafés obteve a nota 95,85 no Cup of Excellence 2005, que é o recorde mundial até hoje, pois ninguém a superou ainda. Ele tinha bastante bourbon amarelo e bourbon vermelho e foi colhido em grande altitude”.
Para Antonio José, outro diferencial que contribui para o sucesso da região é a produção manual, o que faz a qualidade superar a dos cafés das lavouras mecanizadas. Por sua vez, Paulo César Junqueira, diretor da Cheirin Bão, acrescenta um outro aspecto especial:
“Sabemos que cada café tem uma história diferente, um sabor diferente, um aroma diferente. Também temos café natural, café cereja descascado e muitos outros tipos. Não podemos nos esquecer, no entanto, que o mais interessante de tudo isso são as pessoas que produzem todos eles.
E as histórias que estão por trás de cada xícara…”.
Saberes e tradição de séculos
A partir de 1996, os produtores passaram a tratar a safra com outro olhar. O café deixou de ser colhido sem critério e passou a ser escolhido por maturação. Os cultivares precoces, médios e tardios ajudaram a marcar o ritmo da produção, e a lavoura ganhou calendário próprio. Assim, o saber e a tradição de séculos de trabalho na terra encontraram novos processos e inovação.
O fruto não podia ser outro. A Mantiqueira se tornou uma das grandes referências do café especial do Brasil.




