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Das marcenarias artesanais ao início da industrialização
Tudo começou com a chegada dos primeiros imigrantes vindos da Itália para a região, especialmente a partir de meados do século 19. Em 1857, o então povoado de São Januário de Ubá foi elevado à categoria de cidade, que passou a ser denominada de Ubá.
Eles exerciam diversos ofícios, mas a maioria deles era de marceneiros. Como relata Heliane Martins, gerente do Sindicato Intermunicipal das Indústrias do Mobiliário de Ubá (Intersind), muitos italianos trouxeram as suas ferramentas e começaram a montar pequenas marcenarias.
“Por isso, podemos dizer que, em Ubá, a madeira nunca foi apenas matéria-prima. Ela era também um destino – e que não foi dado de graça, mas construído a muitas mãos e com muita labuta pelos primeiros artesãos. Eles trabalhavam em pequenas oficinas, escondidas no fundo das casas”, conta.
Eram marcenarias de quintal e fábricas improvisadas, que usavam caixotes de madeira para dar forma a móveis que, décadas mais tarde, estariam nos quatro cantos do mundo. De lá para cá, muita coisa aconteceu para transformar Ubá e região no mais importante polo moveleiro de Minas e um dos maiores do Brasil.
De acordo com Cláudio Oliveira, diretor das escolas do Senai no município, as fábricas de móveis surgiram ainda na década de 1960. “Eram produções bem familiares, e cada empresa fazia um pouquinho. Surgiu uma empresa que se destacou, depois, veio a segunda, e isso não parou mais”, relata.
A região se firmou, até os anos 1980, como um setor industrial já bem estruturado. E foi nesse período, com o Arranjo Produtivo Local já consolidado, que ocorreu o boom de crescimento do Polo Moveleiro de Ubá.
Naquela década, a indústria foi ganhando cada vez mais força. Muitos ex-funcionários de fábricas, com conhecimento já adquirido e muita coragem, começaram a abrir seus próprios negócios. Ou seja, o que começou de forma artesanal logo se transformou em um novo capítulo para a indústria local.
Cláudio ressalta que, já na década de 1990, as empresas passaram a contar com o apoio de diversas entidades para consolidar a gestão profissional de seus negócios. Além do Senai, que chegou à região em 1992, as empresas passaram a contar com o suporte do Sebrae e do Intersind:
“Essa ação sinérgica das três entidades era o elo que faltava para conectar, efetivamente, os pequenos empresários. O objetivo comum era dar um sentido mais profissional para uma atuação em cadeia, visando fomentar o desenvolvimento local. Surgiram também diversas parcerias customizadas entre as empresas locais”, argumenta.
A partir desse impulso, o setor passou a fortalecer suas marcas enquanto polo moveleiro, conseguindo negociar melhores contratos com fornecedores, e a expandir os seus produtos para novos mercados, em nível nacional e internacional, com o apoio do Senai e do Sebrae.
Movidos pelo empreendedorismo
Alguns empresários, hoje com negócios bem consolidados, relembram daqueles primeiros anos, como Gilberto Salêtto, atual presidente do Intersind:
“Eu via a história dos outros empresários. Sabia que muitos saíram de alguma empresa e montaram suas próprias empresas. Então, pensei: eu também posso ser mais um dentro desse nicho de empresários e de pessoas empreendedoras da nossa cidade”, diz.
Outro exemplo é o de Walmir Rocha Lopes, que começou a vida profissional na fábrica de móveis do pai: “Ele tinha uma marcenaria. Na época, era um pequeno negócio, mas trabalhavam com ele pessoas que gostavam de fabricar móveis e tinham experiência muito grande na área. Eles faziam muitas peças de encomenda para clientes de toda a região. A equipe era formada por marceneiros capazes de fazer os designs e desenvolver novos projetos. Da fabricação de mesa e cadeira, nós passamos a fazer a sala inteira e fomos crescendo, mesmo que desordenadamente. Passamos a comprar em feiras do setor muitos maquinários de ponta. Expandimos os negócios, chegamos ao mercado externo. Atualmente, somos uma das maiores fábricas de móveis da região”.
Além de industrial, Walmir é hoje prefeito de São Geraldo, um dos municípios do polo. E garante: “Na nossa cidade, só fica desempregado quem realmente quer”. Como se poderia imaginar, o que estimula e impulsiona empresários como Gilberto e Walmir, assim como tantos outros que sonharam e ajudaram a construir o Polo Moveleiro de Ubá, tem nome: empreendedorismo. E são eles mesmos que enfatizam que não fazem isso sozinhos, como ressalta Heliane:
“Sem dúvida, o empreendedorismo é a grande chave e a mola propulsora que garante o diferencial do nosso setor. E isso tem sido possível por meio da ação de entidades como o Sebrae, que tem gerado muito conhecimento para os empreendedores do polo. Foram as tantas ações da entidade, ao longo de todos esses anos, que transformaram a vida desses empresários”, ressalta.
Impactos nas novas gerações
As transformações ocorridas em Ubá, impulsionadas pelo empreendedorismo, não fez a diferença somente na carreira dos empresários locais. As mudanças tiveram impacto na vida de muita gente, a exemplo da jovem Júlia Gonçalves Coelho, cujo pai encontrou na indústria moveleira o caminho para dar um futuro mais digno para a sua família, como ela relata:
“Meu pai trabalha na indústria moveleira desde os 15 anos e sempre valorizou muito o estudo. Ele dizia: “Júlia, nunca vou conseguir deixar nada físico para você e seu irmão. A única coisa que eu consigo deixar para vocês é o estudo”. E eu passei no Enem, para o curso de Publicidade na Universidade Federal do Espírito Santo, em Vitória, a 500 quilômetros de Ubá. Então, perguntei para ele: “Eu posso ir? Pois vai ter o custo de moradia, transporte etc.”. E ele respondeu: “Eu vou arregaçar as mangas e você vai. Não vai deixar de estudar porque é longe, pois você tem de cumprir o seu sonho. Eu encarei tudo, fui e me formei. Hoje, estou de volta, trabalhando em Ubá em um agência de publicidade. E meus clientes são da indústria moveleira”, conta.
Histórias como a da Júlia ajudam a compreender melhor como o polo vem contribuindo para transformar a vida de milhares de pessoas em Ubá e região. Formado por mais de 600 indústrias de móveis, o APL moveleiro gera 20 mil empregos, mas, para chegar à forma atual, foi preciso fazer como os primeiros artesãos: esculpir e talhar muito. No próximo episódio, vamos ver como se dá a organização da cadeia produtiva do setor.




