Muitos empreendimentos bem-sucedidos e que dão origem a polos industriais crescem em função de investimentos econômicos de empresas ou da perseverança de empresários com ampla visão de futuro. Alguns projetos, porém, florescem em decorrência de iniciativas surgidas fora do contexto dos negócios.
Esse foi o caso de um dos mais robustos polos de tecnologia e inovação do país, localizado em Santa Rita do Sapucaí, no Sul de Minas Gerais. Ele teve origem no segmento de educação, a partir da determinação de uma mulher de muita fibra.
Vamos conhecer, em três episódios, o que levou a região a ficar internacionalmente conhecida como Vale do Silício brasileiro e como o Sebrae tem contribuído para esse sucesso.
No início de tudo, a educação
Uma das grandes revoluções tecnológicas dos EUA, realizada na California, começou, ao que tudo indica, dentro de uma garagem, dando origem ao mundialmente conhecido Vale do Silício.
O Brasil também viveu a sua revolução na área, mas, por aqui, tudo começou de forma bem diferente. Ela teve início no meio do barro, naquela pequena cidade do Sul de Minas.
Foi uma senhora conhecida como dona Sinhá Moreira quem mudou os rumos do destino do município, talvez ungida por Santa Rita de Cássia, padroeira da cidade, de quem ela era devota. Mulher de pulso forte e uma empreendedora social, dona Sinhá embarcou em uma jornada missionária e apostou na educação como um catalisador da transformação pela qual a região passou até se tornar referência internacional em tecnologia.
Tudo começou em 1959, com a criação da Escola Técnica de Eletrônica Francisco Moreira da Costa (ETE). De acordo com Alexandre Barbosa, diretor da ETE, no passado, a economia da região era eminentemente rural:
“Santa Rita foi fundada em 1892, e sua economia era totalmente baseada nas culturas de café e de leite. A partir das iniciativas de Sinhá Moreira, tudo isso começou a mudar. Ela teve oportunidade de viajar muito entre os anos de 1929 e 1940, e conhecer diversas realidades em muitos países”, afirma Alexandre Barbosa, diretor da ETE
A inspiração vinda do Japão
Roberto de Souza Pinto, presidente do Sindicato das Indústrias de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares do Vale da Eletrônica (Sindvel), explica como tudo começou durante essa viagem:
“Na época em que Sinhá Moreira passou pelo Japão, o país estava investindo muito nas formações educacionais voltadas para os segmentos de eletrônica e de mecânica nas engenharias.
Ela teve a oportunidade de acompanhar tudo aquilo e tomou, então, uma decisão: ao voltar para o Brasil e, mais especificamente, para sua terra natal, Santa Rita do Sapucaí, iria montar uma escola de eletrônica.
Segundo ela, a iniciativa faria muito bem para o Brasil, assim como para a sua região e, em especial, para as comunidades e as famílias de sua cidade”, destaca Roberto Pinto, presidente do Sindvel.
A primeira escola técnica da América Latina
Como explica Alexandre Barbosa, a Escola Técnica de Eletrônica Francisco Moreira da Costa (ETE) foi a primeira a ser criada na América Latina e a sétima no mundo especializada na área. Em homenagem ao seu pai, Sinhá Moreira deu à instituição o nome dele.
“Naquela época, não havia indústrias em Santa Rita do Sapucaí, e era preciso fazer alguma coisa. O raciocínio era simples: era preciso criar empresas e, para isso, havia necessidade de mão de obra qualificada, ou seja, pessoas estudadas e bem capacitadas”, complementa Alexandre Barbosa, diretor da ETE
Nascem o Inatel e a FAI
De acordo com Roberto Pinto, na sequência da criação da ETE, ocorreu, seis anos depois, em 1965, a implantação do Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel), em Santa Rita, que passou a oferecer o curso de graduação de Telecom de nível superior.
Como explica o engenheiro elétrico Mário Augusto, o idealizador e fundador do Inatel foi o professor José Nogueira Leite, que já tinha uma ampla experiência de mercado no segmento de telecomunicações no Brasil.
Leite percebeu a falta de engenheiros especializados em telecomunicações e teve a ideia de criar uma escola de engenharia operacional para o desenvolvimento do setor. Com todo o apoio da ETE e da comunidade de Santa Rita do Sapucaí, ele fundou o Inatel.
“A partir daquele momento, começaram a surgir muitas empresas relacionadas ao segmento. Percebeu-se, então, que faltava ainda a parte administrativa para se fazer a boa gestão dos negócios que estavam surgindo. E fizeram o seguinte raciocínio: na cidade, já temos técnicos e engenheiro de qualidade, assim como diversas firmas crescendo. Agora, só falta quem administre os negócios e as iniciativas”, ressalta Mário Augusto, engenheiro elétrico.
Naquele momento, a Faculdade de Administração e Informática (FAI) estava sendo concebida por eles. Ela foi inaugurada em 1971, quando a área de informática estava começando a prosperar no Brasil. Com o passar dos anos, o relacionamento entre professores, alunos, ex-alunos e novos empreendedores tornou-se muito frutífero para todos, como recorda Alexandre Barbosa:
“A escola sempre estava aberta para empresários ou ex-alunos que acabavam de montar sua empresa. Eles recebiam todo tipo de apoio e suporte, em termos de almoxarifado, setor contábil, laboratórios e tudo o mais que precisavam para entenderem bem como funcionava uma empresa. Os especialistas eram os professores, que passaram também a orientar os alunos em seus projetos.”
Quem faz uma síntese histórica da evolução é Roberto Pinto, do Sindvel:
“Do final dos anos 1950 até o fim da década de 1970, nós vivemos de construir escolas. A partir dos anos 1980, começaram a surgir as startups, com ajuda das escolas, dos professores e dos laboratórios.”
Alexandre Barbosa complementa as informações sobre esse processo, que levou o Vale do Silício brasileiro a ter, hoje, cerca de 160 indústrias:
“Sem dúvida, Santa Rita mudou muito. Mas não foi a indústria que transformou a cidade, como ocorre em muitos casos. A mudança se deu por conta da educação.”
TRÊS FATORES DA VOCAÇÃO PRODUTIVA DA REGIÃO
A vocação da região foi fruto da combinação de três fatores:
Especialização técnica precoce
Desde a década de 1960, Santa Rita formava profissionais em eletrônica quando o setor ainda era incipiente no Brasil. Isso criou um diferencial competitivo estrutural.
Cultura empreendedora estimulada pela formação prática
A ETE e, depois, o Inatel e a FAI, sempre estimularam projetos, prototipagem e aplicação real do conhecimento. O aluno aprendia fazendo. Esse modelo, naturalmente, estimula a geração de novas empresas.
Ambiente de cooperação local
Diferentemente de polos formados por atração de grandes indústrias, o Vale da Eletrônica nasce de pequenas e médias empresas de base tecnológica, que compartilham conhecimento, fornecedores e mão de obra qualificada.
A identidade “Vale da Eletrônica” se consolidou quando essa dinâmica deixou de ser apenas um conjunto de empresas isoladas e passou a ser percebida como um arranjo produtivo.
Um ecossistema de inovação
A educação técnica pioneira no país, o empreendedorismo local e a visão estratégica das lideranças lançaram as sementes para a formação de um ecossistema de inovação no setor de eletrônica, que viria a ser referência internacional.
Vamos conhecer um pouco mais os frutos desse processo de sucesso no segundo episódio desta série.
De ações isoladas a um projeto coletivo
Vamos imaginar a seguinte ideia: se Santa Rita do Sapucaí fosse um circuito eletrônico vivo, a educação poderia ser a fonte de energia, as empresas seriam os dispositivos, e a liderança, a conexão.
A analogia nos permite entender melhor a razão de se criar um polo de desenvolvimento. E também de poder afirmar: na prática, o Vale da Eletrônica só passou a existir de verdade quando muitas peças soltas se transformaram em um sistema integrado.
O polo tecnológico de Santa Rita do Sapucaí só se consolidou a partir da combinação de três fatores: a criação de uma cultura de cooperação, a opção pelo empreendedorismo e a atuação visionária de lideranças públicas. Ele é, na verdade, um projeto coletivo de desenvolvimento de território.
Nesse episódio, vamos falar dos atores que deram os contornos bem definidos para a formação de um novo Arranjo Produtivo Local (APL), que hoje tem identidade própria e reconhecimento mundial. E também vamos analisar os desafios impostos por essa nova conjuntura.
As articulações para a criação do polo nasceram da relevante atuação do então vice-prefeito, Paulo Frederico Toledo, o Paulinho Dentista. Ao perceber que a cidade já contava com diversas empresas e instituições de ensino na área, ele começou a estruturar o que viria a ser o APL. Marcos Goulart Vilela, presidente da Leucotron, uma das primeiras empresas do polo, relata como tudo começou:
“Existia na cidade uma empresa, a G Sodre, que produzia equipamentos de segurança individual. Ela era muito grande para os padrões da época, tinha quase mil funcionários. Um dia, porém, ela encerrou suas atividades e demitiu todo mundo, criando uma crise gigantesca. O Paulinho Dentista ficou apavorado com a situação e começou a buscar alternativas.”
Quem descreve o caminho encontrado por Paulinho para superar a grave situação é Roberto de Souza Pinto, presidente do Sindvel:
“O nosso então vice-prefeito percebeu o seguinte: Santa Rita contava com um conjunto de escolas bem estruturadas que já estavam, na essência, formando muitos talentos. Por sua vez, esses profissionais de primeira linha estavam sendo levados embora por grandes corporações de todo o Brasil. Ora, o que seria preciso fazer para reter essas pessoas talentosas, que poderiam contribuir muito para desenvolver o município?”
Paulinho Dentista não estava sozinho na busca de soluções para o entrave. Outros profissionais e autoridades públicas também contribuíram na busca para descobrir o “caminho das pedras” e tentar consolidar aquela vocação da região, como relata o professor Mário Augusto, fundador do Inatel:
“O diretor do nosso instituto, na época, era o professor Navantino Dionísio Barbosa Filho, um idealista que também pensava muito no futuro de Santa Rita. Eu era o vice-diretor, e nós conversamos muito sobre tudo aquilo. Na época, tivemos também um prefeito que percebeu a importância de se criar uma identidade própria para o segmento que estava florescendo. Ele e o professor Navantino tiveram a ideia de promover uma feira para reunir as pequenas empresas que estavam sendo criadas – muitas delas em fundos de garagens.”
Surge a ideia de atuação coletiva
Para surpresa de todos, como relembra o professor Mário, o ginásio do Inatel ficou simplesmente lotado. Foi quando se percebeu que já existia um grande número de pequenas firmas atuando na cidade, cada uma a seu modo.
A partir daquela feira, ainda segundo ele, todos os interessados na criação de um polo local passaram a atuar de forma coordenada para institucionalizar a iniciativa. O grupo contava com a participação do poder público municipal, de empresários, que foram ex-alunos e já estavam estabelecidos, professores e estudantes.
O caminho estava aberto para a criação de um projeto que pudesse agregar todos aqueles atores interessados em se estabelecerem comercialmente. O empresário Marcos Goulart relata o que ocorreu naquele momento, já em meados dos anos 1980:
“Nosso amigo Paulinho Dentista buscou ajuda de um profissional da área de marketing chamado Paulo Graciotti, que passou a nos dar um grande apoio. Ele reuniu a turma de sua agência e, trabalhando sem nenhuma remuneração, produziu inicialmente um folder para apresentar a cidade e sua vocação.
Como mote para a campanha, criou a tão conhecida denominação Vale da Eletrônica, que logo se espalhou. A partir daquele marco, ele começou um trabalho já bem mais estruturado para a atração de empresas para o novo polo.
Na avaliação de Marcos, a ida daquelas empresas, sem dúvida, contribuiu para o desenvolvimento local, porém, os investimentos mais significativos do polo tiveram origem nos negócios criados no próprio Vale.
As estratégias de crescimento
A partir de então, a existência do polo e um grande espírito de coletividade passaram a ditar as estratégias de expansão do setor na cidade. José de Souza Paleto Lima, diretor da empresa Linear, a primeira do Vale da Eletrônica, explica como se deu essa dinâmica:
“Muitas pessoas começaram a abrir suas próprias empresas. Diversos engenheiros que começaram a trabalhar na Linear, por exemplo, saíram para iniciar seus negócios aqui no Vale. O processo ocorreu da seguinte forma: uma empresa fabricante de circuitos impressos, por exemplo, produzia os próprios transformadores que utilizava. Porém, os proprietários começaram a notar que valeria mais a pena comprá-los do que fabricá-los. Outras pessoas perceberam isso e abriram uma pequena empresa de transformadores.
Outro exemplo: um empresário da área de mecânica fabricava gabinetes de escritório – para isso, tinha de produzir as gavetas. Ele, então, pensou: ‘uma outra empresa bem que poderia fazer as gavetas que utilizo’.
Foi dessa forma, portanto, que nasceu o APL de Santa Rita do Sapucaí.”
Cada vez mais, o conceito de APL foi ampliando a solidariedade entre os empresários. De acordo com o professor Mário, havia uma amizade muito grande entre os integrantes do Arranjo. Ele mesmo chegou a ver casos de uma empresa ceder equipamento para a concorrente.
Quem reforça essa percepção é Carlos Nazareth Maris, diretor do Inatel:
“Eu sinto que, em Santa Rita, ocorrem duas formas de cooperação muito intensas. Uma do empreendedorismo em si, quando um profissional resolve criar sua própria empresa; e outra do empreendedorismo no sentido de se fazerem coisas diferentes, na medida em que o indivíduo escolhe participar do time de uma corporação que já existe.”
Os entraves da inflação descontrolada
Apesar desse senso de colaboração no Vale da Eletrônica, Roberto Pinto, presidente do Sindvel, ressalta que as décadas de 1980 e de 1990 foram especialmente de muita dificuldade de sobrevivência para as empresas, devido à inflação muito elevada no país. O empresário José de Souza confirma as adversidades enfrentadas:
“Começar uma empresa e administrar o negócio num ambiente de hiperinflação era sempre um desafio. Nós pagávamos o salário no início do mês, mas não tínhamos ideia de qual seria o novo valor no próximo pagamento.”
De fato, o período não foi fácil para os empresários de todo o país. No início da década de 1990, por exemplo, além do elevado patamar da inflação, o cenário econômico estava muito adverso. O país vivia as consequências do fim da reserva de mercado e de uma abertura econômica que estava gerando grandes incertezas devido à globalização dos mercados.
Tudo isso representava entraves na incipiente industrialização do Vale da Eletrônica, o que diminuía sua competitividade e colocava todo o setor em risco.
Foi nesse cenário desafiador – e na transposição do universo analógico para o digital – que o Sebrae chegou a Santa Rita do Sapucaí. A instituição passou a capacitar os empresários locais, oferecendo acesso a informações estratégicas e a modernas ferramentas de gestão.
É o que veremos no último episódio desta série.
A chegada do Sebrae
No início dos anos 1990, as indefinições conjunturais do Brasil não atingiam apenas o cenário econômico. O país passava também por uma transição tecnológica.
O fim da reserva de mercado no setor de informática abria as portas para uma concorrência maior vinda do exterior, assim como para a queda nos preços e as perspectivas de redução do atraso do setor. O celular ainda estava chegando ao país e mal existia internet. Em outras palavras, a Era Digital estava dando o ar da graça.
No polo tecnológico de Santa Rita do Sapucaí, o contexto também era semelhante e pouco favorável. E foi exatamente naquela época de incertezas e muitas mudanças que o Sebrae chegou ao Vale da Eletrônica. E, como sempre acontece, contribuiu muito para ajudar os empreendedores a virarem o jogo.
Olhar global em todo o ecossistema
A presença do Sebrae representou um avanço expressivo em várias frentes de atuação junto às empresas, como atestam participantes do polo. De acordo com Alexandre Barbosa, diretor da ETE, o Sebrae chegou atuando com muito profissionalismo, o que representou “um salto gigantesco” para as empresas.
Carlos Nazareth, diretor do Inatel, avalia que uma das mudanças mais expressivas realizadas pela instituição foi “a forma global de olhar para o ambiente local, levando em conta todo o ecossistema de Santa Rita”.
O trabalho foi ganhando força a cada dia, por meio de iniciativas concretas, como atestam os empresários locais. César Sodré, da Exxer, detalha o que passou a ser feito:
“Eu me lembro da criação de assessorias em diversas áreas estratégicas, como marketing, vendas e produção. Naquela época, recebemos também um grande número de mentorias oferecidas pela equipe técnica do Sebrae.”
De acordo com Flávia Couto, da Vision, o apoio e o estímulo da entidade ao fomento da economia local, por meio de iniciativas como o Sebraetec, foram fundamentais para as empresas do Vale da Eletrônica conseguirem investir em novas tecnologias. “Sem tudo isso, muitas delas, com certeza, nem existiriam mais”, ressalta.
A consultoria do Sebrae ajudou a consolidar o bom desempenho individual dos empreendedores locais. E a articulação da entidade junto aos mercados contribuiu para o bom desempenho do território como um todo.
Inserção internacional e capacitação
Uma das portas abertas pelo Sebrae foi a da inserção internacional dos empresários do Vale, como explica Edson Rennó, da Ativa Soluções:
“A minha primeira viagem ao exterior foi por conta de um programa do Sebrae. Sem dúvida, visitar uma feira internacional e participar do evento, expondo o que nós tínhamos criado, abriu a minha mente.”
Para Roberto de Souza, do Sindvel, outra ação muito relevante foi a implantação de um plano de desenvolvimento e capacitação voltado para as empresas do segmento:
“Com base nessa iniciativa, o que nós fizemos? Partimos para a criação de estratégias de internacionalização do nosso setor. E qual foi a primeira coisa a fazer? Mudar a forma de pensar dos donos das empresas – o que era essencial para seguirmos em frente.
Nós fizemos, então, a internacionalização do produto, a começar pela comunicação, com os folders, cartões de visita, sites e tudo o mais. E também tomamos a iniciativa de garantir um bom padrão de qualidade para todos os produtos. Para se ter uma ideia, em 18 meses, apoiamos a certificação de 72 empresas na ISO 9001 no Vale da Eletrônica.”
Por sua vez, Flávia Couto ressalta que, desde sua chegada, o Sebrae sempre esteve muito bem antenado em relação às questões tecnológicas, com uma visão de longo prazo, oferecendo todo o suporte para inovações nos produtos e serviços. Ela adverte:
“Hoje em dia, uma empresa que não utiliza Inteligência Artificial (IA) a cada 15 minutos ou, pelo menos de hora em hora, já pode ser considerada obsoleta. É preciso trazer esses recursos para modernizar os processos e conseguir entregá-los com mais eficácia.”
Como vimos no primeiro episódio, o Vale do Silício brasileiro destaca-se pela grandeza do seu porte. Atualmente, ele é a casa de mais de 160 indústrias de base tecnológica, 50 startups, gera 17 mil empregos e movimenta R$ 3,2 bilhões por ano.
Esses números, por mais impactantes que sejam, ainda são insuficientes para mostrar como o desenvolvimento desse território tem efeitos em toda a cadeia do setor.
Polo tornou-se hub de oportunidades
Como vimos, desde a criação do Vale, Santa Rita do Sapucaí reduziu parte da migração de bons profissionais para grandes empresas de diversos estados. Como foi o caso do diretor do Inatel, Carlos Nazareth:
“Eu nunca tive dúvida, ao optar por ficar na cidade, que teria bons amigos e construiria minha família – inclusive a profissional. E também seria uma pessoa realizada por poder trabalhar com atividades tão interessantes como as que acontecem aqui.
Afinal, quem está em Santa Rita não permanece apenas por ser um lugar de oportunidades, mas por ter se apaixonado pela cidade.”
De fato, não são poucas as realizações de destaque no Vale – onde foi realizado, por exemplo, o primeiro teste do sinal 5G no país. O APL também concentra 70% do mercado de eletrônicos no setor de segurança e 100% da produção das urnas eletrônicas do Brasil, além de se distinguir pelo desenvolvimento da robótica avançada e uso da inteligência artificial.
Esses dados demonstram como um lugarejo que já foi uma colina cercada por pântanos tornou-se uma potência tecnológica e um hub de oportunidades. Mais do que isso, transformou o destino de toda uma população.
Por outro lado, contudo, o polo também é conhecido pela exportação de talentos, como ressalta José de Souza Lima, diretor da empresa Linear:
“Não há um lugar no Brasil em que você não encontre um engenheiro formado pelo Inatel ou um técnico que estudou na ETE. E nem mesmo um equipamento produzido em uma cidade de apenas 40 mil habitantes.
Eu me pergunto: como isso pode ocorrer? Algo tão incomum assim revela a grande importância dessa cidade para o Brasil!”
Futuro a ser construído a muitas mãos
De fato, esse breve panorama da história do Vale de Eletrônica brasileiro demonstra sua relevância para o país. A trajetória do polo pode não ter contado com a participação dos maiores expoentes do setor no mundo, como Steve Jobs, criador da Apple, ou Larry Page, fundador da Google. Porém, no caso brasileiro, todos podem se orgulhar da determinação daquela visionária senhora chamada Sinhá Moreira.
Por várias décadas, essa história vem sendo traçada por empresários e líderes visionários – e com a participação decisiva de instituições como o Sebrae. Uma instituição que continuará seguindo ao lado de Santa Rita para que a cidade prossiga captando os sinais do futuro e transformando-os em desenvolvimento.
Afinal, mais importante do que qualquer artefato tecnológico, sempre será a infinita capacidade humana de imaginar o amanhã e construí-lo a muitas mãos.
