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A vanguarda e o prestígio do café do Cerrado Mineiro

A Região do Cerrado Mineiro é marcada pelo pioneirismo e pela vanguarda na produção de cafés especiais, com perfil sensorial valorizado internacionalmente. Ela é também um dos principais e mais prestigiados polos produtores de café do mundo, reconhecimento conquistado pela altíssima qualidade e rastreabilidade dos seus produtos. Esses fatores garantem identidade ao café e agregam valor à origem.

O território é formado por 55 municípios do Alto Paranaíba e Noroeste do estado, conta com 250 mil hectares de áreas plantadas e produz 7,5 milhões de sacas de café por ano. Os cerca de 4,5 mil produtores da região se orgulham das Indicações Geográficas (IG) já conquistadas, como a Indicação de Procedência (IP) e a Denominação de Origem (DO).

A IP atesta ao mercado que a região tem know how na produção de cafés. Já a DO garante, entre outros fatores, que o terroir da região é amplamente favorável à produção, ou seja, as características exclusivas daquele meio geográfico (como solo, clima, altitude) e do “saber fazer” dos produtores.

A região é responsável por cerca de 25% da produção mineira e por mais de 12% da nacional. O prestígio do polo pode ser aferido também pelo elevado índice de suas exportações. Atualmente, 30% da produção é destinada ao mercado interno, e 70% vão para o externo – especialmente para países da União Europeia e para os EUA.

Episódio 1
Episódio 2
Episódio 3
Episódio 4
Episódio 1
Episódio 2
Episódio 3

A tradição que veio de fora

Uma das formas de conhecermos a história de uma cidade ou uma região é procurar saber mais sobre as tradições do lugar e sua vocação para produzir algo. No entanto, nem sempre acontece assim – como não ocorreu na história do Cerrado Mineiro.

Quem chegou para ocupar economicamente a região não tinha nenhum vínculo especial com a terra e nem foi “descobrir” o café. Na verdade, a maior parte daqueles imigrantes – oriundos principalmente do Paraná – foi para a região com o objetivo de recomeçar a vida como cafeicultor, devido às geadas que destruíam muitas culturas da região. Eles chegaram a Minas levando suas técnicas, seu maquinário e o conhecimento.

Esses primeiros produtores que perderam tudo no Sul encontraram, naquele cerrado de relevo muito plano e céu alto, um lugar que parecia propício para ser reinventado. Na prática, podemos dizer, então, que a tradição da região não veio antes da técnica – mas sim floresceu juntamente com ela. E assim gerou pertencimento e construiu identidade.

Agora, são esses empreendedores que narram as suas próprias histórias, marcadas por desafios e conquistas, como no caso do produtor rural Gláucio Castro, atual presidente da Federação dos Cafeicultores do Cerrado. Há 40 anos, ele vem trabalhando na região e justifica a fama que o café obteve:

“As características geográficas daqui tornam a região propícia para a produção de café de qualidade. Estamos falando especialmente do clima seco e de um período de inverno mais frio, que proporcionam um amadurecimento mais lento do grão. Isso faz com que os sabores que estão na casca e no mel do café vão sendo transferidos para o grão, o que garante uma qualidade superior ao nosso produto”.

Para o diretor-executivo da Federação dos Cafeicultores do Cerrado, Juliano Tarabal, a criação de entidades de produtores foi muito importante para a estruturação do setor. Ele relata que o café do Cerrado Mineiro surgiu na década de 1970, quando paranaenses e paulistas foram para a região em busca de uma nova fronteira para cultivar o produto.

Segundo Juliano, isso ocorreu, especialmente, em função da chamada geada negra que, em 1975, devastou todo o cafezal do Paraná, dizimando nada menos que 300 mil hectares de plantação em uma única noite. No caso dos cafeicultores paulistas, explica ele, a migração ocorreu por causa de uma praga chamada nematoide que se alastrou por muitas regiões produtivas. Juliano completa:

“Aqueles problemas inviabilizaram, na época, a cafeicultura daqueles dois estados, ocasionando uma forte migração de produtores para o Cerrado mineiro e dando início à produção na década de 1970. Logo depois, nos anos 1980, começaram a surgir as associações”.

Em 1984, por exemplo, foi criada a primeira delas – a Associação de Cafeicultores de Araguari. Em 1986, foi a vez da Associação dos Cafeicultores de Patrocínio (Acarpa) e, em 1992, nasceu o Conselho das Associações dos Cafeicultores do Cerrado, que atualmente se chama Federação dos Cafeicultores do Cerrado”.

Produção se torna profissional

A produção cafeeira cresceu em um compasso bem natural no Cerrado. Sob um céu sem pressa de mudar, as estações se arrastam com folga, o relevo se estende sem interrupção, e a lavoura acompanha esse ritmo, de maneira ampla, aberta e exposta ao tempo.

Ainda no começo da década de 1970, o processo de produção começou a ganhar contornos mais definidos e se tornou mais profissional quando o Instituto Brasileiro do Café (IBC) oficializou a região como área cafeeira. Essa decisão abriu espaço para mais pesquisas, investimentos e também para um olhar mais atento ao que estava sendo construído ali.

Um dos fatores também fundamentais para a arrancada do desenvolvimento do Cerrado foi o espírito desbravador de muitos dos que chegaram de fora, como o cafeicultor paranaense Francisco Sérgio de Assis, que se tornou um renomado engenheiro agrônomo na região. Hoje, ele preside a Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado de Monte Carmelo (monteCCer) e a Fundação de Desenvolvimento do Cerrado Mineiro (Fundaccer). Francisco se recorda dos primeiros anos:

“Quando nós chegamos, por volta de 1986, o investimento em tecnologia era muito baixo, e todos nós sabíamos muito pouco sobre as características do território. Tivemos de ser, realmente, os desbravadores em busca de informações e de aprendizado. Em 1990, participei do meu primeiro seminário na área e pude ver como as associações de várias regiões estavam atuando de forma muito positiva. Nós trouxemos conosco aquelas ideias, e logo ocorreu um movimento de criação de entidades semelhantes na região do Cerrado Mineiro”.

Foi quando surgiu a Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado de Monte Carmelo (monteCCer). Eu me lembro que começamos recebendo uns 80 ou 100 mil sacos de café por ano. Hoje em dia, sou o presidente da entidade e, graças a Deus, ela é um sucesso. Neste ano, em 2026, vamos receber 700 mil sacos. Isso não ocorreu porque aumentamos muito o número de cooperados, mas sim porque cada um deles, por meio do trabalho coletivo, passou a ajudar no crescimento da cooperativa”.

A força do associativismo

Quem concorda com Francisco é Simão Pedro de Lima, diretor da Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado (Expocacer). Na visão dele, foi exatamente o associativismo que impulsionou a união de todos, como explica: “O mais determinante aqui na região foi mesmo o objetivo comum de unir os produtores para a valorização de uma produção de alta qualidade e que se tornou única em todo o Brasil. Eu não tenho dúvida em dizer: as cooperativas representam os braços estendidos dos cooperados, que fazem o produto chegar a qualquer lugar do mundo. Afinal, a cooperativa não é uma intermediária do setor. Pelo contrário, ela é a representatividade efetiva dos produtores”.

Outro impulso que ajudou muito a projetar a produção da região no país e no exterior passou a ocorrer na medida em que os cafeicultores começaram a participar de concursos e prêmios do segmento, como ressalta Gláucio Castro:

“Começamos a participar de eventos nos quais se promoviam premiações para os melhores cafés. O Cerrado Mineiro foi agraciado em vários deles, o que passou, evidentemente, a destacar a qualidade do produto da região. Sem dúvida, isso resultou em mais força e mais foco para os produtores, no sentido de desenvolvermos ainda mais nosso café”.

Em uma única premiação, promovida por uma entidade italiana, o café do Cerrado Mineiro faturou nada menos que oito dos dez primeiros lugares. Isso ajudou a despertar na região a consciência de que estávamos, realmente, produzindo um café diferenciado. Essa fama serviu também como incentivo para que mais produtores passassem a se empenhar, cada vez mais, para alcançar o mesmo padrão”.

Formação de identidade coletiva

Como vimos, o Cerrado Mineiro é, possivelmente, um dos únicos lugares onde a história do café não começa com uma descoberta, mas com uma decisão – a que levou centenas de produtores a saírem de sua terra natal para fincarem raízes em uma nova região e chamá-la de sua.

Com muito trabalho e cooperação, a formação da identidade de cada um desses produtores que vieram de longe transformou-se em uma iniciativa coletiva, responsável pelo sucesso do café do Cerrado.

No próximo episódio, vamos ver como esse território, com o apoio do Sebrae e de diversos parceiros, se tornou pioneiro e referência no Brasil.

 

Infográfico Episódio 1

O Cerrado encontra seu ritmo

A experiência de implantação da cultura do café no Cerrado Mineiro começou como uma tentativa de desenvolver a região como um novo polo do produto. Esse esforço foi, aos poucos, ganhando forma. Entre erros e acertos, adaptações e muita disposição para o trabalho, o Cerrado foi deixando de ser uma região que, aparentemente, parecia pouco propícia ao cultivo agrícola. E foi se revelando como uma terra fértil para produtores que acreditaram no potencial do território.

Eles chegaram à região sem garantias, levando na bagagem não somente o sonho de um recomeço, mas também uma visão tecnológica e empresarial. E tudo ganhou tração mesmo quando o Sebrae e outros parceiros começaram a organizar e qualificar a cadeia produtiva e a desenvolver estratégias de valorização do produto local.

Vamos descobrir como isso aconteceu nesse segundo episódio do documentário sobre a região do Cerrado Mineiro.

Nasce o arranjo institucional

Um dos primeiros impulsos desse processo de profissionalização da produção ocorreu a partir de 1992, com a criação da Federação dos Cafeicultores do Cerrado. De acordo com Juliano Tarabal, diretor da entidade, aquele momento marcou o início de um grande arranjo institucional e regional de governança:

“Duas lideranças da época – Agnaldo José de Lima, o primeiro presidente da Federação, e Juarez do Valle, um dos pioneiros e principais líderes no fortalecimento institucional do Conselho das Associações dos Cafeicultores do Cerrado (Caccer), entidade fundada em 1993 que originou a atual Federação dos Cafeicultores do Cerrado, deram os primeiros passos nesse sentido. Eles, literalmente, desenharam a marca – a nossa primeira identidade coletiva – em um guardanapo de mesa. Aquela que se tornaria o símbolo do Café do Cerrado e que passou a ser estampada em sacarias, embalagens e placas das cooperativas das cidades da região”.

 

Ocorreu, então, o seguinte: na década de 1990, o nome Café do Cerrado foi ganhando fama e notoriedade. A partir disso, uma série de ações foi se desenrolando na nossa região”.

Uma delas, como explica Juliano, foi o início do movimento em busca da Indicação Geográfica da região, em 1996, ano em que ocorreu o marco legal da iniciativa no Brasil, a exemplo do que já acontecia nos principais vinhedos da Europa. O pedido de registro do café do Cerrado na modalidade Indicação de Procedência (IP) foi feito em 1997 junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial, mas só foi outorgado em 2005. De forma pioneira, ele representou o primeiro registro relacionado ao café no Brasil.

Antes disso, em 2001, o Sebrae Minas implementou na região um projeto-piloto do Educampo Café, com o objetivo de transformar a realidade dos produtores, promover maior profissionalização, aumentar a competitividade e a sustentabilidade da cafeicultura.

Com o passar dos anos, a fama e a notoriedade do café da região, citadas por Juliano, foram se espalhando também para outros países. Em 2002, por exemplo, ocorreu o primeiro embarque do produto da região para o Japão com selo de rastreabilidade. Quem reforça essa notoriedade é a produtora Elesandra Beloni, da Agrobeloni:

“Atualmente, em qualquer lugar do mundo, se você tomar um café doce, cremoso, com acidez cítrica e retrogosto saboroso, vai saber que se trata do café do Cerrado Mineiro. Um café com muita história, produzido com muito cuidado e amor – e feito com consciência e sustentabilidade”.

Tradição passada por muitas gerações

Como em toda atividade econômica que se transforma em tradição, as técnicas e as práticas vão passando por várias gerações, como ocorreu, separadamente, com Alan, Lucimar e Augusto. Eles cresceram aprendendo cada segredo do sucesso e seguem os ensinamentos das famílias.

Alan Michel, também presidente da Associação dos Pequenos Produtores do Cerrado (Appcer), relata:

“Faço parte da terceira geração de produtores de café na minha família. Meu avô começou os plantios na região em 1974, quando chegaram a Patrocínio os primeiros cafeicultores migrantes do Paraná. Logo depois, meu pai também veio e começou a plantar na fazenda em que estou hoje”.

Ele iniciou os plantios em 1998, mas, em 2016, faleceu. Eu fiz a sucessão do meu pai e, de lá para cá, a gente está inovando muito, sempre com o apoio do Sebrae. Hoje, o nosso trabalho é 100% voltado para a qualidade e a sustentabilidade do café.”

A história de Lucimar Silva, da Auma Agronegócios, com a cafeicultura do Cerrado Mineiro começou aos 14 anos, ao lado da mãe, na colheita do café:

“Desde aquela época, eu acreditava na grandeza do meu sonho, que era estudar, ganhar conhecimento e crescer dentro dessa cultura, buscando novas oportunidades. Houve um período em que eu trabalhava durante o dia e estudava à noite. Foi quando consegui uma oportunidade de começar a trabalhar com as certificações do café. Acho que nós evoluímos profissionalmente quando acreditamos em nossos talentos, sabendo que eles caminham junto de nós”.

Outro membro da terceira geração de uma família de cafeicultores é Augusto Custódio, da Custódio Café. Ele e um primo assumiram a gestão da propriedade, com o apoio dos pais, o que foi fundamental, em sua avaliação:

“Essa é uma característica da nossa região, onde é comum ocorrerem as sucessões familiares. Isso é muito bom, pois os mais jovens trazem inovações e processos diferenciados, sempre buscando o melhor para a nossa cafeicultura”.

Da faculdade à fazenda

Outra produtora que também passou a utilizar, no cultivo, muitos conhecimentos obtidos nos estudos foi Elesandra Beloni. A empresária ressalta que tinha o desejo de colocar em prática na fazenda Agrobeloni o que havia estudado na faculdade – como de fato ocorreu. Em 2007, ela começou a fazer trabalhos de campo na fazenda, especialmente no Manejo Integrado de Praga (MIP).

Com sua formação e a experiência prática, Elesandra obteve uma visão diferenciada da sua atividade, como explica:

“Eu implantei grande parte do café que temos na fazenda. Aos poucos, fui percebendo algo muito interessante: na verdade, o café é muito mais que café, pois ele cria conexões. É fruto do trabalho de todas as pessoas que estão juntas, envolvidas na produção”.

Nós vamos pegando um amor e um carinho muito grande por essa cultura. Ao ponto de, quando tomamos uma xícara de café, não estamos simplesmente degustando um café – mas também uma história, porque por trás daquela xícara, há muitas pessoas trabalhando com bastante dedicação”.

Identidade, tecnologia e excelência

Quem chega a um território levando novas tecnologias precisa aprender algo que nenhuma máquina ensina: a se reconhecer no lugar para começar a desenvolver um sentimento de pertencimento. Foi o que aconteceu no Cerrado Mineiro, com os vários imigrantes que se deslocaram para aquele lugar, onde a técnica veio primeiro e a identidade foi sendo construída em conjunto, de safra em safra. Nesse processo, foi essencial também a chegada do Sebrae, que entrou nas propriedades para falar não só de produtividade, como também de uma nova forma de pensar o negócio e criar um centro de excelência do café.

Essas foram conquistas que projetaram para fora o café produzido na região e introjetaram, em cada produtor, o orgulho de ser parte dessa terra. Assim, o Cerrado se torna um polo que ganha, a cada dia, mais reconhecimento nacional e internacional.

No próximo episódio, vamos falar sobre como essa história evoluiu até chegar a um novo posicionamento de marca, incorporando uma estratégia de impacto ambiental, inovação e desenvolvimento do território.

Território maduro

A Região do Cerrado Mineiro criou o café de origem e não parou de se desenvolver e de agregar valor ao produto. Hoje, ele pode ser identificado por diversas características especiais, como: notas florais, responsáveis pelo sabor e aroma; acidez brilhante, que garante a sensação imediata de frescura; corpo médio, que responde pela textura e densidade; e retrogosto de inovação, relativo ao sabor residual.

Neste último episódio, vamos descobrir como a região vai além da produção, com muitos avanços conquistados por meio de iniciativas e ações que contam com o apoio do Sebrae Minas. Elas possibilitam que se vislumbre na região uma visão de futuro que integra inovação, autenticidade e regeneração em um único ecossistema vivo e de muito valor.

Apoio à profissionalização e à expansão

Diversos produtores e lideranças do setor descrevem a importância do trabalho realizado pelo Sebrae na região. Para o diretor da Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado (Expocacer), Simão Pedro de Lima, a instituição levou para lá metodologia de trabalho, consistência nos processos, aporte econômico e financeiro, além de profissionalismo. Nas palavras dele, “tudo o que faltava na região”.

Agnaldo José de Lima foi o primeiro executivo da Federação dos Cafeicultores do Cerrado e acompanhou muito de perto todo esse processo de atuação do Sebrae, que começou no início da década de 1990. Ele conta que foi também um dos primeiros cafeicultores do Cerrado a participar do programa Educampo, formado por grupos de produtores atendidos pela entidade:

“O Sebrae foi fundamental para a nossa região, porque nos deu condições de realizar projetos que, sozinhos, nós não iríamos conseguir – como participar de feiras no Brasil e de eventos no exterior”.

Nós fizemos, por exemplo, intercâmbios com mercados da Europa para conhecer os métodos de torrefação dos produtores de lá e saber como o café era comercializado nos grandes centros do continente. Tudo isso foi proporcionado pelo Sebrae”.

De acordo com Lucimar Silva, da Auma Agronegócios, “o Sebrae sempre se preocupou em fortalecer o Cerrado Mineiro. Não só a cafeicultura, mas toda a produção na região. Eles fazem o acompanhamento do setor, oferecem cursos com seus consultores e incentivam projetos voltados para o fortalecimento da economia local”.

Sustentabilidade e rastreabilidade da safra

Em 2012 foi criado o Prêmio da Região do Cerrado Mineiro, com concurso para a escolha do melhor produto. A premiação, uma das principais na categoria de cafés especiais do Brasil, é promovida pela Federação dos Cafeicultores do Cerrado e pelo Sebrae Minas. Ela reconhece a qualidade, a sustentabilidade e a rastreabilidade da safra.

Esse suporte contribuiu para impulsionar ainda mais os negócios, fazendo com que, em 2013, a região recebesse o reconhecimento de Denominação de Origem (DO) pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Foi a primeira DO para cafés no Brasil, registro que comprova a rastreabilidade, o padrão de qualidade e a autenticidade do terroir no mercado nacional e internacional.

Quando o Cerrado Mineiro conquistou esse reconhecimento, produtores e comerciantes perceberam que a classificação representava perspectivas de ampliação de mercado – como de fato ocorreu. Alguns anos mais tarde, em 2022, a região atingiu a marca de um milhão de sacas comercializadas com o selo de DO, ampliando as vendas no Brasil e no exterior.

Como todo bom mineiro sabe, o café tem também seu lado social, aproximando as pessoas e abrindo espaço para que outras histórias se conectem a ele. Seja na mesa de casa, numa visita de trabalho ou nos encontros de amigos.

Papel fundamental do Educampo

Outros cafeicultores também destacam o pioneirismo e a importância do Educampo. Um deles é Alan Michel, presidente da Associação dos Pequenos Produtores do Cerrado (Appcer):

“A atuação do Sebrae tem sido muito importante para a produção na nossa fazenda. Nós aderimos ao Educampo desde o início. Os técnicos nos dão assistência agronômica e nos acompanham na gestão. A cada ano, fazemos uma programação juntamente com o agrônomo do Sebrae”.

Fazemos um planejamento financeiro e um agronômico, sempre olhando para o curto, o médio e o longo prazos. Isso nos ajuda muito na tomada de decisões, especialmente para encurtar custos e vender o café no momento mais favorável para nós”.

Para Augusto Custódio, da Custódio Café, o Educampo mostrou aos produtores algo fundamental:

“Quando estávamos começando, as dificuldades eram muitas. Mas o projeto conseguiu nos dar a visão de que onde estávamos produzindo não era só uma fazenda – mas uma empresa!”.

Turismo, queijo e vinho também em alta

Quem também vem colhendo os bons frutos do desenvolvimento da Região do Cerrado Mineiro são os empreendedores do turismo, segmento em crescimento na região. Assim como os de queijo, que já tinham a sua história no Cerrado Mineiro e passaram a aproveitar os bons ventos para os negócios trazidos pelo café. Em 2023, a região também conquistou a Indicação Geográfica para os queijos na modalidade Indicação de Procedência (IP) e, no ano seguinte, foi reconhecida pelo Governo do Estado como Arranjo Produtivo Local (APL) com vocação para a cafeicultura.

E onde há café e queijo, há sempre gente reunida – no caso do Cerrado Mineiro, boa parte dos consumidores passou a ser formada por turistas. Na época, o projeto Rota do Café do Cerrado Mineiro, desenvolvido e estruturado pelo Sebrae Minas, em parceria com a Federação dos Cafeicultores do Cerrado e a Expocacer e o apoio do Governo de Minas, por meio da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult), passou a fazer a integração de turismo, gastronomia e cultura. A iniciativa promove visitas a fazendas, destacando torrefações e produção de cafés especiais, além de valorizar a gastronomia, os vinhos e a cadeia hortifruti na perspectiva da sustentabilidade.

Os bons resultados dos negócios na região são comemorados por Mariana Velloso Heitor, da Expocacer: “Temos produção de queijos incríveis no Cerrado Mineiro e estamos com diversos vinhos premiados. Ou seja, já contamos com uma gama de produtos da região, que crescem junto com a nossa marca e a nossa cultura”.

Para Juliano Tarabal, diretor-executivo da Federação dos Cafeicultores do Cerrado, a região vem estruturando o chamado turismo de experiência. Diversos tipos de propriedades estão envolvidas com o projeto – e em cada uma são valorizados os pontos mais fortes, como ele explica:

“Contamos com propriedades de agricultura familiar, assim como outras voltadas para a agricultura regenerativa. Temos também fazendas de excelência em qualidade, com premiações em concursos nacionais e internacionais, que promovem uma experiência mais voltada para a questão sensorial, relativa à prova dos cafés”.

Para completar, os visitantes podem ainda acompanhar um pôr do sol no horizonte do cafezal. A Rota está proporcionando, portanto, experiências diversas. Atualmente, o município de Patrocínio, onde o projeto nasceu, conta também com cafeterias preparadas para promover esse turismo de experiência”.

Cafeicultura regenerativa e o futuro

A cafeicultura regenerativa garante que um sistema de produção de café vá além da sustentabilidade convencional. Ela foca na restauração, na revitalização e na regeneração dos ecossistemas agrícolas onde o grão é cultivado. Ao mesmo tempo, visa aumentar a biodiversidade local e capturar carbono da atmosfera.

Enquanto a agricultura convencional pode esgotar o solo ao longo do tempo, o sistema regenerativo enxerga a lavoura como um ecossistema vivo. O objetivo principal é devolver à natureza mais do que o cultivo retira.

Elesandra Beloni, da Agrobeloni, ressalta a importância da expansão desse tipo de agricultura, baseada nos pilares social, econômico e ambiental:

“Todos sabemos que vamos precisar do solo fértil por muitas e muitas gerações – em especial as que virão mais no futuro. Com essa consciência, possibilitamos a utilização sustentável dos minerais daquela área. Somos pioneiros no plantio direto do café regenerativo e no uso de plantas de cobertura. Fazemos tudo da maneira mais correta para deixar como legado para as próximas gerações”.

A microbiota engloba o conjunto de bactérias, fungos, leveduras e vírus que habitam o solo, as raízes, as folhas, os frutos e as sementes de uma cultura.

Por fim, quem reforça a importância da cafeicultura da região é Marcelo Urtado, da Fazenda Três Meninas, ao lembrar que o setor é responsável por uma das maiores commodities do mundo:

“O que fazemos é muito importante e sabemos que é preciso ter bastante responsabilidade. Para mim, o Cerrado Mineiro é um exemplo de cafeicultura em termos de negócio, relação humana e governança. Eu tenho muito orgulho em fazer parte de tudo disso!”.

Em 2026, com apoio do Sebrae, a região lança um novo posicionamento de marca, com nova estratégia de impacto ambiental, inovação produtiva e desenvolvimento territorial como diretrizes permanentes do território. A iniciativa começou com o lançamento de uma nova marca territorial, em março, mas vai além da identidade visual: vai formalizar uma estratégia que integra impacto ambiental, inovação produtiva e desenvolvimento territorial como diretrizes permanentes da região.

Região pioneira atrai o olhar do mundo

Durante muito tempo, o Cerrado Mineiro olhou para fora para aprender, mas, em algum momento, os ventos mudaram de direção. Hoje em dia, é o mundo que olha para essa terra que redefiniu o conceito de identidade e qualidade do café.

Uma região pioneira, que agora lidera esse movimento regenerativo com impactos positivos para todo o território. A região do Cerrado Mineiro integra riquezas e histórias de sucesso.